Memórias do Subsolo, Dostoiévski.
Posted by Reticentefev 23
“Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno. Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, zombando maldosamente de si mesmo e irritando-se com a sua própria imaginação. Ele próprio se envergonhará dessa imaginação, mas, assim mesmo, tudo lembrará, tudo examinará, e há de inventar sobre si mesmo fatos inverossímeis, com o pretexto de que também estes poderiam ter acontecido, e nada perdoará. Possivelmente começará a vingar-se, mas de certo modo interrompido, com miuçalhas por trás do fogão, incógnito, não acreditando no direito nem no êxito da vingança e sabendo de antemão que todas estas tentativas de vindita vão fazê-lo sofrer cem vezes mais que ao objeto da sua vingança, pois este talvez não precise sequer coçar-se”.
(Memórias do Subsolo, Fiódor Dostoiévski. Tradução de Boris Schnaiderman, editora 34)

2 comments
Comentário by B.O.B. on 27 de fevereiro de 2010 at 21:55
Foi o melhor que li de Dostoiévski. Na edição que tenho a tradução do título é “Notas do Subterrâneo”, que, no meu ponto de vista, traduz melhor o clima sufocante do texto. “Memórias do Subsolo” soa limpo e organizado demais.
Comentário by Antonio Abreu on 27 de maio de 2010 at 8:44
É uma escrita de onde é difícil sair ileso. Um “livro veneno” para Gorki, e o protótipo de Crime e Castigo, influenciou a literatura e a filosofia. Vale a pena ler. É interessante encontrar ainda quem aprecia tal literatura.
Abraço.